Aureus

Com este blog pretendo mostrar os últimos acontecimentos científicos, de maneira a ficarmos à par do que pôde ser feito pelos científicos neste momento, e dos últimos descobrimentos, e ao mesmo tempo oferecer curiosidades, engraçadas ou simplesmente esquisitas, do âmbito da ciência. Isto sempre numa linguagem acessível para todos, sem grandes complicações.
Lembrem-se que eu escrevo a estrutura, mas a vida do blog, o movimento, são os vossos comentários. Façam-os. Qualquer coisa que queiram, fico à vossa disposição.

11 de abril de 2009

Os escorpiões realmente preferem as zonas áridas


Os escorpiões preferem sempre os climas áridos

Sabemos que a resistência às altas temperaturas e a capacidade de conservar a água durante longos períodos de tempo, confere aos escorpiões a possibilidade de prosperar nas zonas mais quentes e áridas do mundo. Mas, esta distribuição global pode ser observada também a nível local? E ainda, podendo estar num clima mais suave, irão preferi-lo?

O estudante de mestrado Shmuel Raz e os seus colegas da Universidade de Haifa, em Israel, apresentaram um relatório no número de Abril da revista de livre acesso PLoS ONE no que demonstram que é esse o caso, inclusive quando temos um habitat tipo europeu e outro tipo africano separados por não mais do que 100 metros.

Faço aqui um aparte para recomendar esta revista, PLoS ONE, assim como a iniciativa que a sustenta, em relação à sua intenção de distribuir e fomentar gratuitamente a ciência entre os seres humanos.

Shmuel Raz e os seus colegas estudaram as comunidades de escorpiões num vale perto do Monte Carmelo, em Israel, que foi denominado Evolution Canyon. Este vale tem fortes inclinações e a sua disposição é aproximadamente de leste a oeste, o que significa que a encosta virada a sul pode receber até oito vezes mais radiação solar do que a orientada ao norte. Portanto, apesar de idênticas em relação à geologia e clima, uma encosta apresenta habitat africano, tipo savana árida, enquanto a outra apresenta um viçoso mato rasteiro, mais europeu, estando separadas ambas encostas por uma estreita faixa que facilmente pode ser atravessada pela maior parte dos animais, incluindo os escorpiões.

Os investigadores recolheram cerca de 200 indivíduos de seis espécies diferentes de escorpiões neste vale. Quatro das espécies foram encontradas em ambas encostas do vale, mas as outras duas só foram encontradas no lado “africano” do mesmo.

Ainda, no total, o lado “europeu” apresentava um 30% menos de escorpiões que o “africano”. Portanto, apesar da facilidade de movimento entre as duas encostas do vale, as adaptações dos escorpiões às condições áridas e as suas preferências determinaram que houvesse uma maior abundância na zona virada a sul, a encosta “africana”.

As diferenças na diversidade de espécies entre as encostas viradas a norte e a sul foram observadas também em outros grupos animais, e em bactérias, fungos e plantas, o que indica que as pressões ambientais provocadas por factores tais como a quantidade de sol, a temperatura e a pluviosidade, tanto individualmente como combinados, podem actuar muito localmente introduzindo mudanças na biodiversidade global.



8 de abril de 2009

Coral negro: O mais antigo organismo marinho vivo


Coral negro, um organismo vivo com mais de 4.000 anos

Investigadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore (LLNL) dos Estados Unidos, da Universidade de Stanford e da Universidade da Califórnia em Santa Cruz encontraram dois grupos de corais de alto mar no Hawaii muito mais velhos do que todos os anteriormente registados.

Coral Dourado
Aliás, estes corais, encontrados a cerca de 400 metros da costa das ilhas havaianas, podem ser os mais antigos organismos vivos marinhos conhecidos.

Os investigadores Tom Guilderson e Stewart Fallon utilizaram a datação com carbono 14, para determinar as idades de Geradia sp. (coral dourado), assim como espécimes de coral negro de águas profundas, Leiopathes sp. A maior idade determinada foi de, respectivamente, 2.740 anos e 4.270 anos.

Com mais de 4000 anos, os corais negros de águas profundas são o mais antigo organismo marinho conhecido. E, para bem do nosso conhecimento, o mais velho organismo colonial encontrado até agora, disse Guilderson. Com base no carbono 14, os pólipos vivos têm apenas alguns anos, ou pelo menos o seu carbono como matéria viva, mas eles têm sido constantemente substituídos ao longo de séculos ou milénios, enquanto iam crescendo os seus esqueletos por baixo.

A técnica do carbono 14 é a ferramenta geocronológica mais utilizada para os últimos 50.000 anos, e os estudos com esta técnica em corais dourados do Atlântico e do Pacífico tinham determinado para estes corais idades entre 1.800 e 2.740 anos, mas alguns biólogos duvidavam de que não pudesse haver corais novos sobre outros sedimentos mais velhos.

Para responder a estas questões, o grupo analisou não só pólipos (os animais vivos que compõem os corais), mas ramos de alguns especímenes. Os animais vivos tiveram a mesma concentração de carbono 14 do que a água superficial, o que demonstra que o carbono foi fotossintetizado recentemente na superfície antes de ser “comido” pelos pólipos. O esqueleto (ramo do coral) mostra uma concentração de carbono 14 que se assemelha à que tinha a superfície da água desde o final dos anos 1950, quando os testes de armas nucleares aumentaram a abundância natural do carbono 14 na atmosfera.

A taxa de crescimento radial, durante os últimos 50 anos, é semelhante à taxa de crescimento nos 300 anos anteriores dos ramos, e é consistente também com as verificadas em muitas amostras fósseis. Aliás, é semelhante para todas as amostras analisadas. No coral dourado, determinou-se que um ramo de 11 milímetros de rádio tem uns 900 anos, enquanto um com 38 mm. de rádio atinge aproximadamente 2.700 anos.

Estas idades indicam uma longevidade muito superior à de estimativas anteriores, disse Guilderson. E só analisaram alguns ramos, pelo que não pode ser determinada a idade do indivíduo completo.

Os corais de alto mar do Hawaii enfrentam ameaças directas e imediatas, como a recolha de corais para jóias e a pesca com arrastões de fundo, para além de que a estreita relação dos corais com a superfície do mar faz com que estes se vejam rapidamente afectados por mudanças nesta, tanto naturais como as provocadas pelo homem, como a acidificação dos oceanos, o aumento da temperatura ou outros, pelo que se encontram em grave perigo.

A antiguidade do coral é mais um motivo para reforçar a protecção dos habitats do alto mar, que tanto se desrespeita muitas vezes, especialmente em águas internacionais.

Ver mais em Sci-Tech



7 de abril de 2009

As bactérias como alternativa: energia e contaminação


Cultura bacteriana. Por baixo, culturas em placas de Petri e o ambiente extremo em que vivem algumas bactérias.

Presentes em praticamente todos os habitats da Terra, as bactérias produzem inumeráveis compostos químicos. Algumas sintetizam produtos valiosos para os seres humanos, como biocombustíveis, plásticos e fármacos, em quanto outras decompõem contaminantes atmosféricos. A maior parte delas dependem dos compostos de carbono como fonte de energia, mas não todas: algumas funcionam de maneira totalmente diferente.

Os peritos em metabolismo bacteriano estão a aprender a tirar proveito desses processos, sendo a produção de biocombustíveis uma área de grande interesse. No MIT, a engenheira química Kristala Jones Prather está a desenvolver bactérias que podem produzir combustíveis como o butanol e pentanol (álcoois com 4 e 5 átomos de carbono) a partir de subprodutos agrícolas, enquanto Gregory Stephanopoulos, professor de engenharia química, está a tentar obter bactérias melhores produtoras de biocombustíveis seguindo a estratégia de melhorar a sua resistência à toxicidade dos materiais que fermentam e das substancias que elas mesmas produzem.

Produzir plásticos e telas empregando bactérias pode consumir muita menos energia do que os processos industriais tradicionais, porque quase todas as reacções químicas industriais requerem elevadas temperaturas e pressões (as quais por sua vez necessitam muita energia para se obter). As bactérias, no entanto, normalmente proliferam a uns 30 graus centígrados, e à pressão atmosférica normal.

Noutra frente, também no MIT, a professora de química Catherine Drennan está a estudar como podem as bactérias degradar compostos como o monóxido de carbono, dióxido de carbono e outros contaminantes atmosféricos.

As bactérias com as que trabalha Drennan absorvem dióxido ou monóxido de carbono, e os utilizam para produzir energia. Tais micróbios retiram do entorno uma quantidade de monóxido de carbono de mil milhões de toneladas por ano aproximadamente.

Temos aqui uma nova linha de investigações, baseadas nas bactérias, que poderiam solucionar ou paliar tanto os nossos problemas energéticos como os de contaminação.

Não nos convêm esquecer, ainda, que a maioria das espécies de seres vivos, e a maior quantidade de biomassa, e os seres que mais e mais diferentes ecossistemas colonizam (incluídos muitos extremamente agrestes), são bactérias, apesar de serem microscópicas. Bom será não nos esquecermos, para o bom e para o mão, de contar com elas.

Aqui podem ver a revista do MIT com este artigo, em formato PDF (em inglês).