Aureus

Com este blog pretendo mostrar os últimos acontecimentos científicos, de maneira a ficarmos à par do que pôde ser feito pelos científicos neste momento, e dos últimos descobrimentos, e ao mesmo tempo oferecer curiosidades, engraçadas ou simplesmente esquisitas, do âmbito da ciência. Isto sempre numa linguagem acessível para todos, sem grandes complicações.
Lembrem-se que eu escrevo a estrutura, mas a vida do blog, o movimento, são os vossos comentários. Façam-os. Qualquer coisa que queiram, fico à vossa disposição.

25 de fevereiro de 2010

Mammatus e Asperatus: As nuvens impossíveis


Nuvens do género Undulatus Asperatus, ou, abreviadamente, Asperatus

Toda a gente sabe o que são as nuvens. E também que há diferentes géneros de nuvens. Mas há alguns tipos especiais de nuvens, diferentes, engraçadas, especiais de alguma maneira, e não tão conhecidas. Destaco agora 2 tipos de nuvens, que não o são totalmente:

De inicio, as nuvens mammatus, que na realidade não são um tipo de nuvens, mas uma formação especial que pode acontecer nelas, devido a correntes de ar descendente. Descobri-as já há algum tempo, não me lembro de onde, e tinha-as um pouco esquecidas.




Diversas fotografias de Mammatus

Depois, um outro género recentemente catalogado, ou nem por isso, na realidade, porque ainda discutem se realmente é um novo género de nuvem ou não, as asperatus. Estas últimas tinha-as visto já em Ojo Científico, e quando recentemente La Aldea Irreductible lembrou-me delas, decidi compartir umas e outras com vocês também aqui.




Diversas fotografias de Asperatus

Por tanto aqui ficam. Todas as fotografias vieram da Appreciation Cloud Society, um lugar de culto para quem goste mesmo de nuvens, e que eu vos recomendo: Há centenas de fotografias espectaculares de todos os géneros e feitios. Passem por lá.

26 de janeiro de 2010

Um mofo engenheiro de comunicações


Mapa de crescimento por horas de Physarum polycephalum sobre o mapa ferroviário de Tokio.


A rede ferroviária de Tokio, no Japão, esta desenhada de maneira muito eficiente, ligando todas as cidades com suficiente redundância como para que uma falha numa linha não suponha o colapso da rede, e não tanta redundância como para que seja incomportável economicamente.
Esta rede foi desenvolvida por várias equipas de engenheiros a trabalhar durante vários anos.


Uma equipa de investigadores conseguiu que um mofo unicelular a reproduzisse quase exactamente em aproximadamente um dia.



Crescimento de Physarum polycephalum na natureza, com a sua estrutura de rede.


A noticia, publicada recentemente em Science, indica que um grupo de investigadores das universidades de Hokkaido, no Japão, e de Oxford, na Inglaterra, chefiado pelo biólogo matemático Toshiyuki Nakagaki, desenvolveu uma ideia: Num mapa do Japão puseram flocos de aveia nos lugares correspondentes às cidades da rede ferroviária de Tokio, e puseram numa ponta uma célula de Physarum polycephalum, um mofo gelatinoso bastante estudado pelas suas especiais características. Em 26 horas o mofo tinha reconstruído um modelo muito semelhante ao que realmente existe, e igualmente funcional.



Representação do mapa real das linhas de comboio em Tokio e do obtido pelo mofo.


Este mofo é um organismo unicelular ameboide, suficientemente grande como para ser observado a olho nu, e multinucleado (tem vários núcleos dispersos pelo seu citoplasma). A sua forma de crescimento implica uma procura de alimento (e a sua preferência vai para os flocos de aveia), expandindo-se para isso formando tubos em todas as direcções. Ao encontrar nutrientes, envolvem e digerem os mesmos, e os enviam através dos próprios tubos, fazendo que os mesmos se alarguem e fortaleçam. Se não encontram nutrientes, vão ficando mais finos até que eventualmente desaparecem. Assim, em pouco tempo, conseguem explorar todo o seu entorno, aproveitando todo o alimento disponível.



Crescimento de P. polycephalum numa placa no laboratório, mantendo a sua característica rede. 


Este organismo já tinha sido investigado, em parte pela sua facilidade de crescimento no laboratório, e Toshiyuki Nakagaki já tinha publicado um artigo em Nature , no ano 2000, sobre a capacidade deste mofo para conseguir resolver um labirinto graças à sua maneira de crescer à procura de alimentos (o que, coisas que acontecem, valeu-lhe o prémio IgNobel  na categoria de ciências do conhecimento no 2008).



Demonstração da resolução do labirinto publicada em Nature (prémio IgNóbel)


Agora os investigadores estão a extrair novos algoritmos matemáticos a partir do método de expansão de Physarum polycephalum, com o intuito de utiliza-los em redes tanto de transportes como de comunicações ou informáticas, uma vez que este fungo unicelular demonstra ser muito mais rápido e eficiente do que os nossos melhores científicos para desenhar redes redundantes.


Mais uma vez, demonstra-se que ainda temos muito que aprender da natureza, e que existem muitos sistemas e processos biológicos que podem ser (e cada vez são mais) copiados pela nossa tecnologia.


Ver mais em ScienceNow, New York Times, Wired, BBC ou Science News. 

25 de janeiro de 2010

Staphylococcus aureus: Propagação de bactérias resistentes


Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA)


Um novo estudo, levado a cabo por Simon Harris, um filogenetista bacteriano do Instituto Wellcome Trust Sanger em Hinxton, Inglaterra, e seus colegas, e que foi publicado recentemente em Science, revela que o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, ou MRSA pelas siglas em inglês, como é mais conhecido, muta muito mais rapidamente do que pensavam até agora.



Esta bactéria, habitual nas infecções hospitalares, consegue mudar pelo menos uma letra (nucleótido) no seu genoma cada seis semanas, e a maior parte deles nos genes envolvidos na resistência aos antibióticos. Esta taxa de mutação nestes genes é muito superior à que se poderia esperar de mutações ao acaso, e o que propõem é que há uma muito forte pressão selectiva nestas bactérias para desenvolver a sua resistência aos antibióticos.



Estes investigadores recolheram amostras da mesma estirpe em 63 hospitais à volta do mundo, e chegaram à conclusão de que todas elas tinham alguma letra do código genético alterada em relação às outras.


A técnica empregue, sequenciação completa dos seus genomas, pode ser utilizada para obter uma melhor compreensão de como é que se propagam as infecções. Por enquanto, já determinaram que esta estirpe provavelmente surgiu na Europa nos anos 60, e desde então extendeu-se, sendo actualmente a estirpe predominante de MRSA na Ásia, enquanto continua a ser uma das principais na Europa e já é muito comum também na América do Sul.


Neste último caso, América do Sul, comprovou-se também que as diferentes amostras estão muito relacionadas geneticamente, o que provavelmente indica que uma só variante de MRSA deve ter invadido recentemente o continente, expandindo-se rapidamente.


Os estudos filo-genéticos sobre estas bactérias devem contribuir com novos dados que permitam limitar a expansão de las infecciones, mesmo tendo em conta que esta linha de investigação ainda se encontra nos seus primórdios. Não é suposto que possa mudar o tratamento de doentes em concreto, mas sim que permita obter uma imagem completa das mutações que podem provocar uma epidemia, e esperam que assim seja possível tomar as medidas apropriadas para a evita-la.


Em tom humorístico, para os distraídos, e antes de ser acusado de alguma coisa, esclareço que o meu nome, Aureus, não provem de Staphylococcus aureus mas de Canis aureus.


Mais informação em Science News